
A Taurus deu um passo em direção à área militar. A fabricante de armas localizada em São Leopoldo (RS), conhecida no Brasil e nos EUA por sua forte atuação no mercado de civil, projeta-se hoje para atender o que entende como uma futura —e forte— demanda de forças de segurança institucionais, como forças armadas e demais órgãos de segurança ao redor do globo.
Os planos, antecipados pelo THE GUN TRADE em novembro, estão agora consolidados, aprovados pelo conselho da empresa, segundo seu CEO, Salesio Nuhs, em conversa com o portal realizada na última quarta-feira (26).
“Agora é uma decisão tomada, não é mais um projeto. A companhia muda de patamar. Amanhã seremos um fornecedor militar“, diz o executivo.
A companhia, que hoje tem três fábricas em operação no mundo, sendo uma no Brasil, outra nos EUA e uma na Índia, fruto de uma joint-venture, prepara-se para ser a única empresa global de armas leves com um portfólio completo: que vai do calibre .22 LR (Long Rifle), um clássico do esporte do tiro, até o .50 BMG (Browning Machine Gun), usado em rifles de longo alcance e em metralhadoras pesadas montadas em veículos e blindados.
Taurus Military Products: cresce portfólio militar
No meio disso, o portfólio já conta com uma nova versão do fuzil T4, agora com sistema de ação por pistão, além de nova versão do fuzil T10, com cano de 16″. Há também uma nova plataforma de pistolas, TX9, e de submetralhadora, RPC (Raging Pistol Carbide), a serem lançadas nos próximos meses.
Além disso, a empresa já tem protótipos de metralhadoras leves na plataforma Minimi, nos calibres 5,56x45mm e 7,62x51mm, além de fuzis de precisão e até um lança-granadas. Uma metralhadora .50 na clássica plataforma M2 também já está em estudos.
E tudo isso deve ser apresentado a partir do dia 1º de abril, quando começa a feira de defesa LAAD Defence & Security, no Rio de Janeiro.
Há também o TAS (Tactical Air Soldier), fruto de uma parceria com uma fabricante brasileira de drones para o agronegócio, na qual a Taurus entra com a arma (a RPC) e o sistema de tiro, que também torna o mecanismo funcional para aplicações terrestres.
“Os novos produtos, especialmente no segmento de maiores calibres, marcam o início de uma nova fase, onde deixamos de ser reconhecidos apenas como líderes em armas leves para nos consolidarmos como uma referência global em soluções completas de defesa“, diz o CEO no convite da Taurus para visita em seu estande no evento destinado ao setor militar.
M&A com turcos em vista?
Na mira da empresa, também há um plano de M&A (fusão & aquisição) em vista, com uma empresa turca, conforme revela o balanço do 4º trimestre da companhia.
“Consideramos a criação de uma nova unidade de negócios que pode ter estrutura interna na fábrica do Brasil e/ou envolver a realização de M&A. Estamos avançando nos estudos de uma possível operação com uma empresa na Turquia, fruto da visita que fiz a esse país no segundo semestre do ano passado”, diz o documento.
No ano passado, Salesio e diretores de Engenharia e Novos Negócios visitaram o país, a fim de conhecer o mercado local, hoje repleto de fabricantes que atuam tanto no mercado civil quanto exclusivamente no militar. É de lá que pode surgir um novo parceiro da Taurus.
“Temos dois caminhos possíveis: o de desenvolver localmente todo esse novo portfólio, o que é possível com nosso quadro de mais de 250 engenheiros do CITE (Centro Integrado de Tecnologia e Engenharia); ou de fazer uma aquisição de uma empresa já atuante no setor, o que aceleraria o processo”, diz Salesio ao THE GUN TRADE.
Segundo ele, numa eventual aquisição de outra companhia, a disponibilidade da linha completa de produtos militares da Taurus cairia de 8 para 3 anos. “Devemos ter novidades muito em breve”, afirma, sem poder dar maiores detalhes, por se tratar de informações de uma empresa de capital aberto.
Um mundo que investe em defesa
A estratégia da Taurus é fundamentada por indicações de uma grande demanda de produtos de defesa nos próximos anos, segundo Salesio.
“O mercado global de defesa em 2023 representou algo em torno de US$ 41,7 bilhões. A projeção para 2032 é de US$ 71.5 bilhões”, afirma, citando dados de uma consultoria de defesa. “Esse mercado de armas de mão representa 29% disso. A Taurus até então não atuava nesse segmento”, diz.
Ele afirma que, de acordo com projeções de analistas do mercado de defesa, “para repor os estoques estratégicos de todos os conflitos atuais no mundo —que são mais de 50 no momento—, são necessários pelo menos 10 anos, se todos se encerrassem hoje”.
Lucro cai em 2024, mas resultado é o melhor em 5 trimestres, diz CEO
Em relação ao resultado do 4º trimestre, divulgado na última terça-feira (25), Salesio afirma que os números são “o melhor resultado da companhia nos últimos cinco trimestres”, demonstrando “resiliência e modelo de gestão”.
O lucro da fabricante caiu 50% em 2024 ante o ano anterior, fechando o ano a R$ 76 milhões, muito em parte atribuído ao resultado fiscal que refleta a desvalorização cambial: o dólar fechou a R$ 6,19 em 31 de dezembro.
“Isso não tem efeito caixa”, diz o CEO. “Minha dívida está dólar, mas não quer dizer que tenho que pagá-la agora. Ela oscila de acordo com a marcação a mercado. Se fizessemos o balanço hoje, o resultado seria muito melhor, e o lucro muito mais positivo”, afirma.
Ele ressalta que a empresa conseguiu crescer a receita e enxugar despesas no último trimestre divulgado. “Conseguimos espichar 7% a receita e diminuir as despesas operacionais em 10%. O resultado de 2024 foi melhor que 2023 mesmo considerando vendas menores”.
A companhia deve anunciar o pagamento de dividendos em breve. De acordo com o estatuto do empresa, o percentual mínimo é de 35% do lucro, o que dará em torno de 0,35 centavos por ação.
Índia & Arábia Saudita: vitórias e expectativas
Nas outras operações da Taurus mundo afora, há duas promessas no continente asiático. Uma já solidificada, a fábrica indiana junto com a Jindal Defense, na qual a Taurus aguarda o resultado da maior licitação de armas leves dos últimos tempos: uma compra de 425 mil fuzis pelo Exército indiano.
A empresa já passou em todos os testes, “extraordinariamente bem“, segundo disse o CEO no Taurus Investor Day, em dezembro, e aguarda —ansiosamente—pelos resultados da licitação militar, que devem ser divulgados até meados de maio, de acordo com Salesio.
Uma eventual vitória garantiria bilhões de reais a Taurus. Com o resultado, a empresa pode faturar de US$ 340 milhões a US$ 380 milhões com o contrato, que tem cinco anos de duração.
No entanto, a gaúcha já aproveita outras benesses do território. “Estamos participando de outras 13 licitações junto a forças policiais, e já dominamos o mercado civil”, diz.
O executivo afirma que só com a produção de pistolas metálicas PT-57, a Taurus já tem entregado resultados competitivos. “Das 8 mil licenças para compra de armas emitidas pelo governo no ano passado, nós entregamos 5 mil”, afirma.
Outra vitória da Taurus no gigante asiático, conta Salesio, é o fato de que a empresa vai começar a fabricar o .380 ACP (Automatic Colt Pistol) no país, que até então não utiliza o calibre. “Será o mais forte permitido localmente”, afirma.
Já em território saudita, os planos ainda são incipientes. A empresa mandou no ano passado, após assinar um term-sheet com a SCOPA Military Industries em 2023, um plano detalhado de localização de uma fábrica no território saudita.
Agora, falta apenas o aval do governo. “Eles demonstraram interesse, mas tem prioridades na frente. Essa resposta pode vir a qualquer momento”.